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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sobre Luiza, o Canadá e a inteligência coletiva

Na última semana tivemos o primeiro grande meme de repercussão deste ano. Uma estudante de 17 anos que NÃO estava com sua família para apresentar um empreendimento residencial no estado da Paraíba. O texto do comercial um "primo" da publicidade brasileira, trouxe consigo um "vírus":

- Menos Luiza, que está no Canadá.


E como todo bom viral no dia seguinte não se falava em outra coisa. Todos iriam visitar, fazer, comer, aproveitar qualquer coisa, menos Luiza, que estava no Canadá. E essa piada/bordão cumpriu sua função viral de divertir a todo mundo. Até mesmo os publicitários, espertos, aproveitaram para fazer chamadas de ocasião nas próprias redes sociais promovendo serviços e produtos que serviriam para todos, exceto Luiza, claro. E assim como todo viral faz rir, lá pelo 2º compartilhamento, começa a irritar também e logo a internet se polariza entre os que compartilham e os que odeiam quem compartilha.
E essa disputa entre lovers e haters chegou a TV brasileira, colocando muita vovó e vovô pra pensar no que está acontecendo com a juventude. Não é de hoje que a TV está usando o apelo da internet para recuperar a faixa etária de 18-35 anos, que provavelmente movimenta a economia e estava perdida neste limbo inalcançável para as emissoras de TV que era a internet. Assimilar a linguagem para TV tem sido feito "naquele jeito" e uma saída encontrada pelos produtores tem sido exibir os famosos virais para atrair a atenção. E não foi diferente com Luiza, sua família e a propaganda ruim. Luiza acabou parando no Jornal Hoje, exibido pela Rede Globo e também foi assunto do Jornal do SBT. No melhor estilo lovers e haters, as edições jornalísticas se polarizaram. A edição global da tarde levando Luiza pra uma entrevista frívola, que mais tinha cara de entretenimento e Carlos Nascimento abrindo seu noticiário com duras críticas à febre do assunto.
Toda esta repercussão em muito menos de uma semana. Mas o questionamento a ser feito é se de fato Carlos Nascimento acredita que "Já fomos um país mais inteligente" de fato ou apenas quis a mesma repercussão da viagem ao Canadá de Luiza. Na tentativa de dissipar um meme ele acabou por se tornar um e é neste momento compartilhado aos montes nas redes, novamente em pólos que apoiam ou satirizam.
A atitude de Carlos Nascimento me lembra a atitude dos senadores americanos em busca da aprovação do SOPA/PIPA, que não perceberam ainda que a velha maneira de fazer da indústria cultural não consegue ser efetiva neste "novo" território da internet e é preciso se reinventar para não cercear a liberdade de expressão. Implicar com uma piada coletiva é uma faca de dois gumes: repele os que dela participam e atrai os que concordam com a idéia.
A internet é um facilitador das inteligências coletivas, a web como é constituída hoje serve principalmente para agregar cultura, que nada mais é que a construção popular de conhecimento. Nada desse conceito colonizado de "cultura popular" "cultura erudita" que os ditos sábios teimam em espalhar. Cultura é tudo o que se constrói em sociedade. Sendo assim os memes são a nova cultura, ou melhor, um traço novo da cultura mundial. Identificar isso como burrice é no mínimo irreflexão e vindo de um formador de opinião isso ganha proporções monstruosas já que influencia pessoas a repetirem - tal como a piada da Luiza - este equívoco, onde se afirma uma pretensa superioridade cultural e ao mesmo tempo se reafirma a "burrice" citada na frase. Afinal quem compartilha Carlos Nascimento pode até não compartilhar Luiza, mas com toda certeza já compartilhou qualquer coisa da qual achou uma graça banal, sem erudição e quis simplesmente mostrar ao mundo o que o fez rir.
Ver a internet como território de "besteiróis" é o mesmo que virar as costas para a nova maneira de construir a cultura. Ninguém é, por tal motivo, obrigado a estar "inserido" nisso, mas não se pode negar que os movimentos, contatos, empreendimentos, relações e instituições sociais nunca se modificaram tanto e tão rápido quanto agora. Não dá pra negar que a internet e sua velocidade de comunicação tenha participação nisso. Portanto, eu dou um novo ponto de vista à Luiza, o Canadá e noticiários televisivos:

Nunca fomos tão inteligentes, e o nosso bom humor é a prova disso.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sou um burocrata

Sou um burocrata. Queria ser diferente, mas não sou. Sonhava em ser um aventureiro do mundo que transforma o mundo um dia de cada vez, mas não posso. Sou um burocrata.
Não consigo me ver correndo, literalmente, atrás de um sonho. Suando e colocando os bofes pra fora por esse motivo. Não poderia ser um lutador, um corredor, um jogador de futebol ou músico. Acho a exaustão deveras exaustiva. E embora pareça uma grande besteira o que digo acima, pra mim faz todo sentido.
Sou um mero repetidor, com alguns lapsos de criatividade aqui e ali, mas sou um mero repetidor. Mais ou menos como o personagem do Chaplin em Tempos Modernos, apertando porcas e parafusos até ficar tonto de fazer a mesma coisa.
É paradoxal que isso seja também uma forma de exaustão, mas pra mim esta soa natural. Experimentei durante o ano passado a posição de botão "liga-desliga" na minha vida profissional, e cheguei no fim disso exausto, requerendo minha velha posição de engrenagem.
Sou um burocrata, é fácil pra mim me encontrar perdido em algo repetitivo que não vai alterar o futuro heroicamente. É fácil pra mim contar com o mínimo de esforço físico em troca de um esforço mental já programado. Sem grandes surpresas e diferenças. Com pequenas alterações no caleidoscópio de poucas imagens trocadas. Experiências sem susto, experiências sem grandes alterações. Sou um burocrata e não me envergonho disso - pensei em escrever "orgulho" e uma palavra mudaria todo o texto. Hoje, não me envergonho, mesmo. A idade trouxe essa coisa que facilita a entender-se como função no mundo. E que me desculpem os heróis, mas detrás da minha mesa vou tentar ajudar o mundo. Um papel de cada vez.